Catedral da Carne que Recorda
🕯️ Catedral da Carne que Recorda Estou morto. Não por tragédia, mas por vocação. Aprendi cedo que a vida não é estrada, é cripta disfarçada de calendário. Meu corpo caminha, mas minha alma já repousa na sombra de um vitral partido por onde a luz entra como uma dúvida antiga. Não fujo da morte. A recebi como se recebe uma carta escrita em sangue: com tremor e entendimento. Ela não me persegue — ela me guarda. Me dizem: “Você ainda está vivo, aproveite, sorria, respire o agora!” Mas meu agora é cemitério de instantes, onde cada segundo já carrega o cheiro do que não será mais. Prefiro outra oração: “Estou morto. Então cristalizarei meus momentos, não para lembrança, mas para eternidade oculta no miolo de cada dor bem vivida.” Não busco eternidade de mármore. Busco a eternidade dos lírios que nascem nas costelas vazias de quem aceitou apodrecer com beleza. Sou flor de fim de mundo. Sou templo dentro do osso. Sou silêncio onde ninguém mais toca. E quando a morte finalmen...