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Mostrando postagens de setembro, 2025

A Caixa de Cada Um

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  O Jarro Que Não É de Todos A lenda chegou a nós distorcida pela boca dos vencedores, e por isso parece mais sábia do que é:  Disse-se que um só jarro continha o mundo, e que a sorte da humanidade foi libertar males. Mas os mitos mentem quando querem ensinar medo: o jarro que Zeus poliu não era universal. Era o vaso de um deus que acordou ao meio-dia e sentiu o gosto amargo da traição.   Em suas mãos, o vidro brilhou de vaidade e rancor; no seu fundo, algo se cristalizou — não o mundo, mas o reflexo moldado pelo ressentimento. Quem recebe um presente assim não recebe o cosmos; recebe o espelho quebrado de quem o oferente é. Ato I — O Presente do Ressentimento Zeus quis fazer história com uma dádiva que ardia como gelo. Punha nela não apenas a forma do ódio, mas sua gramática: uma sequência de rancores dissecados e engarrafados. Entregou a caixa com gesto de quem confia em retaliação, porque quando o criador contém sua mágoa e a embala, transforma-a em objeto de aprendiza...

Lágrima de Brisa

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  Lágrima de Brisa Foi numa noite que nunca mais voltou, mas que nunca deixou de ficar. Uma noite em São Paulo, com cheiro de asfalto molhado e liberdade suada, onde a cidade me olhava sem pressa, e eu respondia com silêncio. O corpo… leve como se fosse feito de ausência. A mente… mais viva do que deveria, correndo solta entre postes e pecados, enquanto o álcool me ensinava a desacelerar sem desistir. Não havia destino. Só o agora. E uma estranha bonita demais pra durar. Uma conversa que não importava, um toque que era mais gesto do que plano. E o ar… ah, o ar… gelado, gentil, com gosto de eternidade em tragos curtos. Ali, naquele exato segundo, eu entendi a crueldade doce da vida: o momento era belo porque era eterno. E eterno não porque duraria — mas porque jamais se repetiria. A beleza estava no fim. No saber que tudo aquilo,  a leveza, a brisa, o corpo anestesiado, a cidade sussurrando promessas vazias, iria embora com o sol. Mas naquele suspiro suspenso, onde nem o tempo ...

O Catelo Feito de Ossos

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O Castelo Feito de Ossos — Sobre a Criança que Matou o Leão com a Espada do Silêncio I. O Grito Inaugural: O Leão Ruge no Ventre do Mundo Houve um tempo em que ser era resistir. Em que cada passo era uma luta contra o concreto das ideias fixas, das verdades engessadas, das estruturas herdadas. O mundo, vasto e opaco, entregava seus dogmas como grilhões polidos, chamando-os de identidade. E então veio o Leão. O rugido. A negação. A vontade de não mais aceitar. Esse Leão nasceu no deserto de todas as obediências. Ele era eu, em minha forma de ruptura. Contra Deus, contra o Pai, contra o Nome. Contra tudo que ousou dizer: “Você deve”. Mas o Leão, embora forte, ainda luta com aquilo que odeia. Ele ainda define-se por oposição. É grande, mas não é livre. II. A Lâmina do Invisível: A Espada que Atravessou a Alma Então apareceu a Espada. Não feita de ferro. Mas de escuta. De presença. De perguntas que não queriam respostas, apenas a reverberação do abismo. Eu fui essa espada. Não afiada pelas...