A Caixa de Cada Um
O Jarro Que Não É de Todos A lenda chegou a nós distorcida pela boca dos vencedores, e por isso parece mais sábia do que é: Disse-se que um só jarro continha o mundo, e que a sorte da humanidade foi libertar males. Mas os mitos mentem quando querem ensinar medo: o jarro que Zeus poliu não era universal. Era o vaso de um deus que acordou ao meio-dia e sentiu o gosto amargo da traição. Em suas mãos, o vidro brilhou de vaidade e rancor; no seu fundo, algo se cristalizou — não o mundo, mas o reflexo moldado pelo ressentimento. Quem recebe um presente assim não recebe o cosmos; recebe o espelho quebrado de quem o oferente é. Ato I — O Presente do Ressentimento Zeus quis fazer história com uma dádiva que ardia como gelo. Punha nela não apenas a forma do ódio, mas sua gramática: uma sequência de rancores dissecados e engarrafados. Entregou a caixa com gesto de quem confia em retaliação, porque quando o criador contém sua mágoa e a embala, transforma-a em objeto de aprendiza...