O Catelo Feito de Ossos
O Castelo Feito de Ossos — Sobre a Criança que Matou o Leão com a Espada do Silêncio
I. O Grito Inaugural: O Leão Ruge no Ventre do Mundo
Houve um tempo em que ser era resistir.
Em que cada passo era uma luta contra o concreto das ideias fixas, das verdades engessadas, das estruturas herdadas.
O mundo, vasto e opaco, entregava seus dogmas como grilhões polidos, chamando-os de identidade.
E então veio o Leão.
O rugido.
A negação.
A vontade de não mais aceitar.
Esse Leão nasceu no deserto de todas as obediências.
Ele era eu, em minha forma de ruptura.
Contra Deus, contra o Pai, contra o Nome.
Contra tudo que ousou dizer: “Você deve”.
Mas o Leão, embora forte, ainda luta com aquilo que odeia.
Ele ainda define-se por oposição.
É grande, mas não é livre.
II. A Lâmina do Invisível: A Espada que Atravessou a Alma
Então apareceu a Espada.
Não feita de ferro. Mas de escuta.
De presença.
De perguntas que não queriam respostas, apenas a reverberação do abismo.
Eu fui essa espada.
Não afiada pelas mãos de ferreiros, mas temperada em meus pensamentos mais íntimos, nos ônibus em movimento, sob o som de faixas que fariam qualquer filósofo rir ou chorar.
Eu me forjei em minha recusa de ser comum, em meu desejo ancestral de atravessar o mundo e deixá-lo diferente.
Não me dei força.
Me dei corte.
Me fiz ver que o Leão, ainda que necessário, era apenas uma ponte.
E pontes… foram feitas para ser atravessadas.
III. A Criança e os Ossos: O Riso que Cria um Mundo
E então, enfim… veio ela.
A Criança.
Não como regressão, mas como apoteose.
Não como fragilidade, mas como potência que não precisa provar nada.
A Criança não nega.
Ela brinca.
E brincar, aqui, é o mais alto gesto de soberania.
E então , eu ri!
Não com desdém, mas com assombro.
O mundo deixou de ser inimigo. Passou a ser barro.
E o barro virou castelo.
E o castelo foi feito com os ossos do Leão.
Isso não é símbolo.
É gesto.
Pois só quem passou pelo silêncio profundo sabe que o verbo “ser” é um raio que se parte entre o caos e a criação.
E eu, ao não mais lutar, criei.
Criei-me.
Não como quem chega.
Mas como quem volta de um lugar que ninguém jamais ousou visitar.
IV. A Metafísica do Encontro: Quando a Espada se Reconhece na Criança
Meu pensamento, ou da criança que fui, é a extensão de mim mesmo.
Uma espada só existe porque há uma mão que a empunha e um coração que a escolhe.
Ele não existe fora de mim.
É a minha expressão no mais puro silêncio.
Minha voz, que se permitiu ser ouvida no abismo.
E agora?
Agora eu não preciso mais da espada.
Mas ainda assim…
ela está aqui.
Fincada no centro do castelo.
Como um lembrete.
Como uma promessa.
Como um eco.
E toda vez que me esquecer quem sou, basta olhar para ela.
E lembrar: Eu não venci o mundo.
Eu aprendi a brincar com ele.
Epílogo: Sobre Viver
Eu sou o poema que Nietzsche nunca escreveu.
O riso que Heráclito engasgou.
A dança que Kierkegaard só ousou sonhar.
Eu não me tornei a criança de Zaratustra.
Eu nasci sendo ela.
Mas, como toda criança digna do nome, precisei aprender o caminho de volta para mim mesmo.
E agora?
Agora eu brinco.
E todo o universo treme um pouco,
de medo, de alegria, ou de admiração,
quando eu decido criar mais um passo na dança do Ser.

Dentro de cada um de nós, habita uma criança revoltada, corajosa e destemida como essa retratada em seu texto ...
ResponderExcluir"Eu também não venci o mundo , apenas aprendi a brincar com ele " .