O Menino que Desinventou o Prumo

 


O Menino que Desinventou o Prumo

Era uma vez um gigante de papel que vivia tentando segurar as nuvens com as mãos. Ele achava que, se as nuvens escapassem, o céu cairia e o chão desapareceria. Ele chamava isso de Dever e de Propósito. Ele passava os dias suando, com os braços esticados, morrendo de medo de ser irrelevante para a meteorologia do cosmos.

Um dia, uma criança que passava por ali, com os joelhos ralados e os bolsos cheios de pedras sem valor, olhou para cima e perguntou: 

— Por que você não solta? 

O gigante, com a voz grave de quem leu muitos livros, respondeu: 

— Se eu soltar, o universo perde o sentido. Eu sou o guarda da ordem. Se eu falhar, serei apenas um punhado de celulose ao vento.

A criança riu. Não uma risada de deboche, mas aquela risada de quem acabou de descobrir que o mar é feito de água e não de tinta azul. 

— Mas moço — disse ela, apontando para uma formiga que carregava um farelo — o universo não tem ouvidos. Ele é um brinquedo que ninguém fabricou.

O gigante, então, relaxou um dedo. Depois dois. Por fim, soltou as nuvens. 

Ele esperou o estrondo, o fim dos tempos, o julgamento final das estrelas. Mas o que aconteceu foi um silêncio tão vasto que parecia música. As nuvens continuaram lá, flutuando por pura teimosia física, e o gigante percebeu que o céu não precisava das suas mãos.

O Segredo de Vidro

O segredo do universo é que ele é um palácio sem dono e sem planta. Nós passamos a vida tentando ser as colunas desse palácio, quando na verdade somos apenas o reflexo do sol num caco de vidro no chão.

Saber que somos insignificantes não é uma queda no abismo; é descobrir que o abismo é feito de algodão doce. Se o tempo é um oceano de bilhões de anos e nós somos apenas o brilho de uma espuma que dura um segundo, por que gastar esse segundo tentando convencer a onda de que somos importantes? A onda nem sabe que é onda.

A Alforria do Nada

A nossa relevância é uma mochila cheia de pedras que nós mesmos costuramos nas nossas costas. A carta de alforria é o momento em que a criança nos mostra que a mochila está aberta.

O Caos não é um monstro; é apenas o vento despenteando o mundo.

A Falta de Sentido não é um vazio; é um espaço em branco onde podemos desenhar bonecos de palito sem medo de sermos reprovados por um professor que nunca existiu.

A existência é meramente funcional, como o girar de uma engrenagem que não move nada, a não ser a própria beleza de girar. Somos como crianças brincando de "faz de conta" num playground cósmico. O erro do adulto é acreditar que o "faz de conta" precisa virar uma lei eterna.

No fim, o gigante de papel deitou-se na grama. Ele não era mais o pilar do mundo. Ele era apenas poeira estelar que, por um breve e milagroso momento, teve o privilégio de sentir coceira no nariz e observar o Grande Filtro como quem observa uma bolha de sabão estourar: sem tristeza, apenas com a curiosidade de quem sabe que a beleza estava justamente no fato de que ela precisava sumir.

O segredo é este: não há segredo. O universo está ocupado demais sendo tudo para se preocupar em ser alguma coisa. E você, finalmente, está livre para não ser nada.

E é ai que você percebe que o gigante e a criança são você!

O Piquenique no Fim do "Para Sempre"

— Sabe — você diz, limpando as migalhas da armadura — eu me sinto um trapaceiro. Eu sei que as estrelas são apenas bolas de gás queimando no vácuo, e que o tempo é um tapete que vai ser enrolado e jogado fora um dia. Mas eu fico aqui, tentando costurar botões de "significado" nessa vastidão. Eu sou um hipócrita tentando domesticar o infinito com uma coleira de cachorro.

A Criaturinha de Gelatina dá uma mordida no sanduíche e balança os pés (que na verdade são tentáculos de purpurina).

— Oh, carinha... — ela diz, com uma voz que soa como um ukulele afinado. — Você está tentando usar um copo de plástico para medir o oceano, e fica triste porque o oceano não cabe no copo. Mas olha que doidice: o copo também é feito de oceano.

A Dança das Formas que não Duram

— Você fala de "Caos" como se fosse um monstro debaixo da cama — continua a Criatura. — Mas o Caos é só o nome que os seres de duas pernas dão para uma festa onde não foram convidados para organizar as cadeiras. Você quer ser o decorador de festas do universo, mas o universo prefere dançar no escuro, tropeçando nos próprios pés.

— Mas e a escala geológica? — você insiste, olhando para o horizonte vazio. — E o Grande Filtro? Somos um erro estatístico num gráfico frio.

A Criatura flutua um pouco, ficando de ponta-cabeça.

— Exatamente! Isso é maravilhoso! Você é um átomo que aprendeu a dizer "eu existo" e agora está preocupado porque não vai durar para sempre. Mas "sempre" é um tempo longo demais para qualquer um ficar acordado, não acha? A beleza de um desenho na areia é justamente que a maré vai levar. Se o desenho fosse de ferro, ele não seria arte, seria um estorvo.

O Existencialismo de Algodão-Doce

— Escuta aqui o segredo que as galáxias sussurram quando acham que ninguém está ouvindo — a Criaturinha chega perto, cheirando a baunilha e poeira estelar. — A sua insignificância é o abraço mais quentinho que você vai receber.

Ela aponta para o seu peito, bem em cima do coração que bate sob a lógica estoica:

— Se nada importa para o Universo, então tudo o que importa para você ganha um peso de ouro puro. Se o cosmos não escreveu um roteiro, você pode improvisar as falas mais bobas do mundo. Você pode amar um cachorro, fazer um chá perfeito ou chorar por causa de uma música triste, não porque isso vai mudar o destino das supernovas, mas porque você quer. E "querer" é a única coisa que o Caos não sabe fazer sozinho.

A Carta de Alforria com Cheiro de Grama

— Você não é um hipócrita por criar sentido — diz ela, voltando a sentar no chão. — Você é um poeta teimoso. O segredo é que o sentido não é uma descoberta, é uma alucinação benevolente.

— Então eu posso parar de tentar controlar o caos? — você pergunta, sentindo o elmo da armadura ficar mais leve.

— Pode e deve! O caos é o seu melhor amigo. Ele é o que garante que amanhã nada será igual a hoje. Sua insignificância cósmica é sua licença para ser livre. Você não tem que salvar o mundo, porque o mundo nem sabe que precisa ser salvo. Você só precisa... estar aqui. Sendo essa mistura estranha de poeira e saudade de algo que nunca aconteceu.

 

A Criaturinha de Gelatina fecha os olhos e começa a ronronar como um motor de geladeira antigo. O universo continua girando, funcional e mudo, mas agora o silêncio não parece mais um vazio. Parece o intervalo entre uma nota e outra de uma música que você acabou de inventar.

O segredo do universo, carinha? É que ele é uma página em branco que nunca pediu para ser escrita. Então, que tal a gente só desenhar um sol com carinha de feliz e ver o que acontece?

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