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Mostrando postagens de março, 2026

O Menino que Desinventou o Prumo

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  O Menino que Desinventou o Prumo Era uma vez um gigante de papel que vivia tentando segurar as nuvens com as mãos. Ele achava que, se as nuvens escapassem, o céu cairia e o chão desapareceria. Ele chamava isso de Dever e de Propósito. Ele passava os dias suando, com os braços esticados, morrendo de medo de ser irrelevante para a meteorologia do cosmos. Um dia, uma criança que passava por ali, com os joelhos ralados e os bolsos cheios de pedras sem valor, olhou para cima e perguntou:  — Por que você não solta?  O gigante, com a voz grave de quem leu muitos livros, respondeu:  — Se eu soltar, o universo perde o sentido. Eu sou o guarda da ordem. Se eu falhar, serei apenas um punhado de celulose ao vento. A criança riu. Não uma risada de deboche, mas aquela risada de quem acabou de descobrir que o mar é feito de água e não de tinta azul.  — Mas moço — disse ela, apontando para uma formiga que carregava um farelo — o universo não tem ouvidos. Ele é um brinqu...

Manifesto da Migalha Patriarcal

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  Há um dia no calendário em que o mundo acorda educado. As empresas trocam a gravata pelo discurso sensível, os anúncios aprendem a dizer “força”, os homens descobrem flores e as redes sociais se enchem de homenagens escritas com a pressa de quem precisa parecer decente. Chamam isso de reconhecimento. Mas reconhecimento que dura vinte e quatro horas tem gosto de migalha. Porque no dia seguinte o relógio volta ao seu ritmo antigo: o medo de voltar sozinha para casa, a piada que diminui, o olhar que mede, o salário que não iguala, a violência que insiste. O mundo aprende a dizer “feliz dia das mulheres” com a mesma facilidade com que desaprendeu a ouvir as mulheres nos outros trezentos e sessenta e quatro dias. Há algo de profundamente irônico nisso. O mesmo sistema que transforma corpos em vitrine oferece flores uma vez por ano como quem pede desculpas sem intenção de mudar. Chamam isso de homenagem. Mas homenagem sem transformação é apenas maquiagem moral. O patriarcado sabe fazer...