Manifesto da Migalha Patriarcal


 


Há um dia no calendário em que o mundo acorda educado.

As empresas trocam a gravata pelo discurso sensível,
os anúncios aprendem a dizer “força”,
os homens descobrem flores
e as redes sociais se enchem de homenagens
escritas com a pressa de quem precisa parecer decente.

Chamam isso de reconhecimento.

Mas reconhecimento que dura vinte e quatro horas
tem gosto de migalha.

Porque no dia seguinte
o relógio volta ao seu ritmo antigo:
o medo de voltar sozinha para casa,
a piada que diminui,
o olhar que mede,
o salário que não iguala,
a violência que insiste.

O mundo aprende a dizer “feliz dia das mulheres”
com a mesma facilidade
com que desaprendeu a ouvir as mulheres
nos outros trezentos e sessenta e quatro dias.

Há algo de profundamente irônico nisso.

O mesmo sistema que transforma corpos em vitrine
oferece flores uma vez por ano
como quem pede desculpas sem intenção de mudar.

Chamam isso de homenagem.

Mas homenagem sem transformação
é apenas maquiagem moral.

O patriarcado sabe fazer isso muito bem:
ele entrega símbolos vazios
enquanto preserva intacta
a arquitetura que produz a ferida.

Distribui aplausos
como quem distribui calmantes.

Mas a vida real não cabe em campanhas.

Ela está no caminho escuro que uma mulher percorre sozinha à noite.
Está no esforço constante de provar competência duas vezes.
Está na exaustão de existir sob olhos que ainda confundem presença com posse.

E ainda assim,
apesar de tudo,
há algo que merece ser preservado.

Não a data domesticada,
não o marketing delicado,
não a homenagem que evapora.

Mas o símbolo verdadeiro.

A lembrança de que cada mulher carrega dentro de si
uma história que não começou ontem
e que não pode ser resumida em um post.

O símbolo que não pede flores,
pede escuta.

O símbolo que não quer aplauso,
quer espaço.

O símbolo que não aceita migalhas
quando o que está em jogo
é a dignidade inteira de existir.

Que fique claro, então:

Não precisamos de um dia
para lembrar que as mulheres existem.

Precisamos de uma vida inteira
que finalmente aprenda
a agir como se isso importasse.

E quando esse dia chegar,
quando o respeito não for exceção no calendário,
mas hábito no cotidiano,
talvez possamos celebrar.

Não a data.

Mas o mundo que, enfim,
aprendeu a merecê-las.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Catelo Feito de Ossos

O Menino que Desinventou o Prumo

A Caixa de Cada Um