Lágrima de Brisa
Lágrima de Brisa
Foi numa noite que nunca mais voltou,
mas que nunca deixou de ficar.
Uma noite em São Paulo,
com cheiro de asfalto molhado e liberdade suada,
onde a cidade me olhava sem pressa,
e eu respondia com silêncio.
O corpo…
leve como se fosse feito de ausência.
A mente…
mais viva do que deveria,
correndo solta entre postes e pecados,
enquanto o álcool me ensinava a desacelerar sem desistir.
Não havia destino.
Só o agora.
E uma estranha bonita demais pra durar.
Uma conversa que não importava,
um toque que era mais gesto do que plano.
E o ar…
ah, o ar…
gelado, gentil,
com gosto de eternidade em tragos curtos.
Ali, naquele exato segundo,
eu entendi a crueldade doce da vida:
o momento era belo porque era eterno.
E eterno não porque duraria —
mas porque jamais se repetiria.
A beleza estava no fim.
No saber que tudo aquilo,
a leveza, a brisa, o corpo anestesiado,
a cidade sussurrando promessas vazias,
iria embora com o sol.
Mas naquele suspiro suspenso,
onde nem o tempo ousava entrar,
a lágrima não caía.
Ela só cristalizava no canto do pensamento.
Como um relicário secreto.
Como um altar sem deus,
feito apenas pra lembrar
que existir, por instantes, é o milagre inteiro.

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