Ensaio: O novo romantismo

O novo romantismo veste luto e acende cigarros mentais.
Vivemos numa era onde o sofrimento virou estética e a dor, um adorno. Reclamar se tornou um hábito refinado, uma poesia automática que escorre dos lábios sem precisar ser sentida. E o mais curioso: nunca se teve tão pouco tempo... e nunca se buscou tantos passatempos. Nunca se leu tanto... e nunca se teve tanta dificuldade com a leitura profunda.
O mal-estar contemporâneo ganhou status de identidade. Somos viciados em nossos infortúnios, amantes de nossas próprias feridas. Há quem não saiba mais quem é sem o peso do que carrega — como se o alívio fosse uma traição à própria narrativa.
Mas será mesmo que somos vítimas? Ou já não passamos da linha e nos tornamos cúmplices entorpecidos de uma sociedade que oferece moldes, e nós, docilmente, aceitamos ser fundidos neles?
É mais fácil culpar o sistema do que encarar o espelho.
Mais confortável apontar o caos do mundo do que organizar o próprio quarto.
Reclama-se do trabalho, mas o boleto sempre vence o desejo de mudança.
Critica-se a superficialidade, mas evita-se o incômodo da profundidade.
Clama-se por liberdade, mas morre-se de medo de viver sem correntes.
A verdade é simples, e por isso tão ignorada: a autonomia assusta mais que a dor.
Ser responsável por si é declarar guerra ao próprio vitimismo.
E isso exige coragem, coisa rara, pois não se compra com likes nem se herda com diplomas.
O romantismo do século XVII não morreu. Apenas trocou a pena pelo smartphone, a flor pela queixa. E hoje dança, sedutor, nos cantos escuros da alma; com um copo meio vazio, um olhar entediado, e a promessa cínica de que sofrer é sinônimo de ser profundo.
Mas há beleza em quem ousa ser autor da própria história.
Porque reclamar é fácil. Dançar com a dor e mesmo assim escrever — isso, sim, é arte.
Excelente!
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