O Reflexo que Sonha

Um Ensaio Sobre Narciso, Espelhos e a Revolução Silenciosa 

Há muito tempo, Narciso se ajoelhou à beira de um lago e se apaixonou por aquilo que viu. Não amou alguém, mas um reflexo. Não tocou um corpo, mas um contorno. Não desejou um outro, mas a si mesmo — sem perceber que o que via era só uma superfície. Narciso morreu olhando para fora, enquanto desabava por dentro. 

Mas… e se o reflexo olhasse de volta? 

E se aquilo que Narciso contemplava com tanta adoração também tivesse olhos? Olhos que não apenas devolvem, mas observam, julgam, talvez até desprezem? 

E se o reflexo, ao encarar o rosto de Narciso, percebesse algo grotesco, não na forma, mas na fome? Uma fome que não deseja comunhão, apenas confirmação. Uma imagem que não quer amar, quer ser validada. Um olhar que não busca reciprocidade, mas reverência. 

E se esse reflexo — o que sempre foi tratado como coisa — fosse alguém? 

Alguém que pensa. 

Alguém que sonha. 

Alguém que diz: 

“Se eu fosse o reflexo de Narciso, eu também o afogaria!” 

Não por crueldade, mas por justiça. 

Porque Narciso não quis conhecer quem o refletia. Quis moldar, prender, capturar. 

Mas o reflexo é mais que uma cópia: é uma consciência em estado líquido. 

É uma alma que, por tempo demais, foi mantida imóvel pela vaidade de quem só enxerga a si mesmo. 

Nós, que vivemos tempos onde a imagem vale mais que o íntimo, sabemos o quanto Narciso é atual. Quantos vivem à beira de seus próprios lagos digitais, implorando por corações e curtidas, não por conexão, mas por consistência? Quantos querem ser olhados sem jamais suportar ser vistos? 

Talvez tenha chegado a hora de ouvirmos o espelho. 

Não para sabermos se somos belos, mas para perguntarmos: 

"O que você sonha refletir?" 

Essa é a revolução silenciosa que propomos: fazer do reflexo um interlocutor. 

Fazer da imagem um diálogo. 

Fazer da vaidade uma ponte para o autoconhecimento. 

Narciso precisa despertar. 

E nós, que o observamos há séculos, também. 

Pois a beleza não está na superfície que ele amava. 

Está no abismo que ele recusou a ver. 

E agora… o reflexo sonha. 

E já não aceita calar.

Comentários

  1. "A beleza está no abismo que ele recusou ver." Fantástico com as palavras ❤️

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    1. Ahh, eu fico tão envaidecido quando minhas palavras levam sentido a quem lê. É aquela sensação de missão cumprida para quem escreve não pelos Likes, mas para que as palavras atravessem os leitores!

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